Às vezes canso-me de lutar

 


Tenho um blog sobre a Valentina.  

Disseram-me isso esta semana, quase com entusiasmo: “Que fixe! Mas andas um pouco desaparecida… tens de publicar mais!”

E eu fiquei a pensar. Desaparecida… Talvez esteja mesmo.

A verdade é simples, ainda que difícil de dizer: às vezes canso-me de lutar. (E é triste uma mãe escrever isto.)

Na sexta-feira passada, estava com uns amigos. Conversa normal, leve, de fim de dia. Perguntaram-me a idade da Valentina.  

– 8 anos.  

E veio a resposta, quase automática:  

– Ah, então tens 4 anos…

Fiquei confusa e perguntei:  

– Para quê?

Em simultâneo, ocorreu-me a razão daquela métrica: 4 anos até aos 12 anos de idade. Até à adolescência, subentenda-se. Tendo percebido a interpelação que me fora feita, continuei:  

– Eu luto, luto, luto. E o que consigo? Poucas horas de docentes qualificados para o ensino especial. Poucas horas de apoio da equipa multidisciplinar. Recursos mínimos distribuídos como se fossem favores. Mantêm-se as AECs de sempre – Percussão e Patinagem. Na percussão, dizem-me que o sucesso é ela permanecer agora na sala. [Dentro da sala, debaixo de uma mesa, a fazer sei lá o quê.] É este o critério? É esta a meta? Para a patinagem, perguntaram-me o que fazer para que a Valentina patine. Sei lá eu? Eu não sei patinar. Não sou técnica. Não sou terapeuta. Não sou especialista em motricidade humana, nem em adaptação curricular, nem no desenho universal da aprendizagem. Sou mãe.

Às vezes cansa-me que a responsabilidade de encontrar soluções estruturais recaia sempre sobre quem já carrega tudo o resto.

Ando “nisto” há 6 anos. Terapias, reuniões, relatórios, e-mails, planos educativos individuais, estratégias, reformulações de estratégias (se tanto), promessas adiadas, frustrações acumuladas e pequenas vitórias que quase ninguém vê. Pequenas conquistas que não cabem numa tabela comparativa de idades, que não se traduzem em percentis nem em gráficos de evolução. E, às vezes, quando me falam em “progressos”, provocam em mim um desespero que me rasga por dentro.

Cansaço. Não é falta de amor. É exaustão. Exaustão de estar sempre a traduzir a minha filha ao mundo. Exaustão de ser ponte, escudo e motor ao mesmo tempo.

A mesa gelou. Ninguém soube muito bem o que dizer. Porque, quando se diz a verdade em voz alta, ela pesa. Depois atirei, quase em desabafo:  

– Faço o quê? Tiro-a da escola?

Silêncio outra vez.

E respondi eu própria à minha pergunta:  

– Às tantas o Ministro até agradecia.

Disse-o com ironia. Mas, por trás da ironia, há uma pergunta séria, incómoda e real: qual é, afinal, o verdadeiro compromisso do sistema em lidar com a diferença? E, talvez ainda mais difícil, até quando é que a diferença consegue resistir ao peso do próprio sistema?

O blog anda mais silencioso porque eu também ando a tentar perceber como continuar. Não a amá-la - isso é automático, estrutural, absoluto. Mas a lutar sem me perder. A lutar sem deixar que a luta me engula.

Talvez escrever seja uma forma de não desaparecer.  

Talvez seja uma forma de dizer: "continuo aqui".

Cansada, às vezes. Mas aqui.  

E a Valentina também.


Despeço-me com o poema "E por vezes" de David Mourão-Ferreira (in ‘Matura Idade’)

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.

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